A unidade cristã é desejo de Deus?

Para nós, metodistas, a base para se compreender o sentido do ideal de unidade são as Santas Escrituras, orientadoras da prática de fé de quem se chama cristão/cristã. Nelas há uma referência que podemos interpretar como fundante: encontra-se na oração sacerdotal de Jesus. O evangelista João registrou que Jesus levantou os olhos para o céu e orou: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim, e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste. Eu lhes tenho transmitido a glória que me tens dado, para que sejam um, como nós os somos; eu neles e tu em mim, a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade, para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim. Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17. 20-24).

Esta é uma das passagens mais belas e profundas do Novo Testamento e é conhecida como a oração sacerdotal ou oração pela unidade. Jesus não está se dirigindo aos discípulos, nem às pessoas que procuraram segui-lo, nem àquelas que se sentiam ameaçadas pelo seu ministério. Jesus está se dirigindo ao Pai, àquele que o tinha enviado. Jesus ora por sua comunidade como um todo, não somente pelos discípulos que estavam com ele, mas também por quem viesse a crer por intermédio deles. Portanto, Jesus estava também orando por nós que temos o privilégio e a responsabilidade de continuar a sua obra.

A oração de Jesus nos mostra que a unidade de sua Igreja não é fruto da vontade humana nem o cumprimento de meros desejos humanos. É o cumprimento do desejo de Jesus Cristo e condição essencial para que o mundo creia, ou seja, para o testemunho cristão no mundo. Isso quer dizer que a comunidade cristã, para ser fiel à sua vocação, deve expressar, por intermédio de suas relações fraternas e de amor, a mesma união profunda que existe na Trindade, ou seja, entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

A unidade da comunidade cristã é uma antecipação da promessa de realização do Reino de Deus que está presente entre nós, mas que somente experimentaremos de maneira plena na consumação dos tempos. É também um sinal da possibilidade de reconciliação entre os seres humanos e destes com Deus. Há uma Ecclesia (igreja) não delimitada pelas tantas denominações existentes, que, na linguagem dos Pais da Igreja, é descrita como igreja una, santa, católica (universal) e apostólica (Efésios 2.14-22). A participação na caminhada pela unidade segue um rumo diferente do divisionismo que tem permitido tantas igrejas que se inauguram e vivem como que sem compromisso com séculos de herança cristã, assim saltando das páginas bíblicas para o seu espaço hoje. Esse brotar dividido não oferece, perante o mundo, testemunho em favor da fé que deseja proclamar “um só Senhor, um só Pai, uma só fé, um só batismo” (Efésios 4).

A busca da unidade não é a busca da união das igrejas em uma única forma institucional. Ela é, acima de tudo, a afirmação e reconhecimento da diversidade de dons e ministérios concedidos por Deus ao seu povo. Portanto, pode-se dizer que a prática da unidade cristã é a busca e vivência da unidade na diversidade. Isto porque nenhuma igreja ou denominação pode reivindicar para si a representação plena e exclusiva do Corpo de Cristo. O máximo que elas podem reivindicar é que são parte, membros, do Corpo de Cristo e que, sob a inspiração e orientação do Espírito, estão em plena comunhão com Deus.

A imagem de “Corpo de Cristo” é, com certeza, a mais linda e mais conhecida imagem da Igreja que Paulo nos ensina. E ela tem vários elementos que são essenciais para nossas vidas, obras e relações tanto pessoais como institucionais.

O que nos caracteriza como Corpo de Cristo é o fato de termos sido batizados em Cristo pelo Espírito Santo. Paulo diz: “Porque assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo. Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um só corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só espírito” (1 Coríntios 12.12-13).

O batismo em Cristo é uma realidade inclusiva. Somos “judeus e gregos, escravos e livres”. Na Carta aos Gálatas, Paulo acrescenta “homem e mulher” (Gálatas 3. 27-28) e aos Colossenses, insere “(o) bárbaro e (o) cita” (Colossenses 3.11). É importante recordar que os gregos consideravam bárbaros todos os que não eram gregos; os citas eram considerados um povo não civilizado, e os judeus, povo exclusivo de Deus. Todas as divisões humanas, sejam elas políticas, econômicas, sociais e culturais, são superadas no Corpo de Cristo. Qualquer um que aceita o chamado e encontra sua identidade em Cristo deve ser capaz de expressá-la em qualquer raça, gênero, classe ou identidade nacional como uma contribuição para o enriquecimento de todos.

Paulo indica que nosso corpo é formado por diferentes membros, cada um com sua identidade e função específica e que essa diversidade precisa ser respeitada. Não há hierarquia de importância entre as diferentes partes do corpo. Todos têm seus papéis indispensáveis para o funcionamento pleno do corpo. Cada parte necessita da outra e é necessitada pelas outras. Podemos dizer que é uma hierarquia circular na qual o centro é Cristo. O papel dos apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres é o de servir para o aperfeiçoamento da comunidade par a o desempenho de seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo (Efésios 4.11- 16). Este é um processo que nos permite crescer na plenitude de Cristo, tanto individualmente quanto institucionalmente.

Na carta aos Efésios (2.11-22), Paulo escreve sobre a trágica divisão da família humana simbolizada pela inimizade entre judeus e gentios. Paulo nos diz que, com sua morte, Cristo derrubou a barreira da separação e criou uma nova humanidade, reconciliando ambos em um só corpo. “Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito” (Efésios 2.19-22). No original grego, Paulo usa uma palavra derivada de oikos (casa) ao referir-se à família e habitação de Deus. É a mesma raiz de oikoumene (ecumene), a terra habitada. É uma imagem poderosa da Igreja como uma comunidade de pessoas que compartilham a vida. Isso significa que nossa missão é propiciar as condições para que a casa do mundo, em toda a sua diversidade, se torne um verdadeiro lar onde todos possam coabitar em amor e justiça.

Em seu grupo de estudos, procure estudar esta parte da Pastoral discutindo com as pessoas acerca de suas várias experiências com a fé. Para algumas, a Igreja Metodista não é a primeira comunidade. O que puderam aprender com outros grupos? O que é relevante para cada um/a no Metodismo? Como isso se relaciona com o sentido do Corpo de Cristo para Paulo?

O apóstolo Pedro também usa a imagem de Casa (oikos) quando fala da Casa de Pedras Vivas para se referir à Igreja, em sua primeira carta aos cristãos da Ásia Menor: “Achegai-vos a ele, pedra viva (Cristo), que os homens rejeitaram, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus. E, como pedras vivas, também vós vos tornastes casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecerdes sacrifícios espirituais aceitos por Deus através de Jesus Cristo” (1 Pedro 2.4-5). Esta imagem da Igreja como casa de pedras vivas se torna mais poderosa quando recordamos que os cristãos da Ásia Menor viviam na diáspora e estavam dispersos por vários lugares, sem organização, e expostos a toda sorte de perseguição. Pedro nos convida a pensar que nós também, na atualidade, vivemos em diáspora, pois estamos num mundo dominado por forças hostis aos valores do Reino de Deus do qual somos cidadãos. Cada crente é uma pedra viva que está ligada e relacionada, em sua individualidade, com a estrutura completa da casa do Espírito. Em palavras atuais, podemos dizer que, apesar de parecer algumas vezes que estamos sós, na verdade estamos ligados uns aos outros, umas às outras, no Espírito, por laços de solidariedade.

 Todas estas imagens nos ajudam a compreender que a Igreja de Cristo não é algo estático, monolítico nem uniforme. Ela é multiforme e todas as suas formas manifestam a Graça de Deus e seu amor infinito revelado em Jesus Cristo. Independentemente desta diversidade de imagens, porém, há algumas características comuns e essenciais entre elas.

  • (1) Cristo é o Senhor da Igreja e a Igreja existe por obra do Espírito Santo para servir a Deus na missão. Ela não é obra humana e, portanto, não pode ser identificada plenamente nas instituições que criamos;
  • (2) A Igreja é um sinal da presença do Reino de Deus para mostrar ao mundo que, em Cristo, todas as diferenças humanas são superadas e a diversidade é valorizada e reconhecida como dom de Deus. Nesse sentido, a Igreja aponta para o mundo a possibilidade de reconciliação da família humana.

A unidade cristã faz parte da essência da Igreja e é uma condição para a credibilidade do testemunho, da missão e do serviço. Ela é um dom de Deus. Portanto, não somos nós que a construímos, mas somos chamados a preservá-la com amor, humildade e mansidão como reconhecimento de que há um só corpo e um só Espírito, um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos. O reconhecimento da diversidade e a preservação da unidade são essenciais para a edificação do corpo de Cristo e sinal da nossa maturidade espiritual (Gálatas 4.1-16).

PARA PENSAR

Avalie o contexto de Pedro: em que a unidade é relevante para os irmãos e irmãs a quem ele escreve? O que essa mensagem poderia significar hoje, por exemplo, para nós em relação aos países do mundo nos quais o Cristianismo sofre intensa perseguição?

Referência: COLÉGIO EPISCOPAL DA IGREJA METODISTA (Brasil). Pastoral dos Bispos e Bispa Metodistas (Comp.). Para que Todos Sejam Um: A perspectiva metodista para a unidade cristã. São Paulo: Sede Nacional da Igreja Metodista, 2009. 41 p. Disponível em: <http://www.metodista.org.br/arquivos/download/para-que-todos-sejam-um-964>. Acesso em: 20 fev. 2020.

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