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Sobre pastorado, macaco, aranha e vaca - Rev. José do Carmo






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Me perguntaram o que eu acho sobre a atitude do Aranha em não querer perdoar e receber a garota Patrícia Moreira da Silva, a qual em uma entrevista pediu perdão ao jogador e ao Grêmio, após ter transformado sua vida e a de sua família em um verdadeiro inferno quando foi mostrada pelas imagens do canal ESPN, aos 42 minutos do jogo entre Grêmio e Santos gritando: MACACO.. MACACO... A partida ocorreu no dia 28/08, quinta-feira, em Porto Alegre, pelas oitavas de final da Copa do Brasil. Sobre o ocorrido, o jogador em entrevista fez a seguinte colocação:

"- Quando gritaram "preto fedido" e "cambada de preto", eu tentei aguentar. Mas quando começou o corinho fazendo barulhos de macaco, eu não aguentei". 

Vi a entrevista da chorosa Patrícia, onde ela se explica e pede perdão ao "senhor Aranha", e vi o advogado falando que ela deseja se encontrar com ele para se desculpar pessoalmente. Depois li que o goleiro por hora se recusa a ter o encontro. Li nas redes muitas pessoas revoltadas, dizendo que o Aranha está "valorizando" e prolongando seus dez minutos de fama. Sinceramente eu não conheço a profundidade de todas as ofensas que os demais torcedores gremistas fizeram ao Aranha. Assim sendo não posso julgar ele por não perdoar, embora, o que li, diz que ele não se sente preparado agora. Perdão leva tempo, perdão imediato muitas vezes é hipocrisia, ainda mais sob pressão midiática. 

Falo a partir de mim, pois não conheço a profundidade das feridas no coração do Aranha. Não conheço a história dele. Sei que o racismo fere. Já fui uma pessoa que odiei e tencionei matar brancos, principalmente italianos, por conta do que um deles um dia fez comigo. E Deus usou exatamente um descendente de italiano e sua família para me curar de vez de tal ódio. A convivência me ensinou a não julgar e odiar todo um povo por conta da maldade de um deles. Já sofri racismo, já fui acusado de roubo, já fui seguido dentro de lojas, já fui discriminado por pessoas que pastoreei, já comprei a briga de um casal de namorados pelo fato de que o rapaz é negro e era pedreiro, e o pai e mão da mulher eram contra o casamento por conta de que a filha é branca e professora. Ouvi coisas do tipo: "Como se já não nos bastasse um pastor negro; agora vamos ter também um genro negro..." - Apesar disso superei e os pastoreei, fiz o casamento e hoje as famílias são felizes, se aceitaram... Então aqui eu falo como alguém que conhece na pele e na face o que é sofrer racismo. Eu de minha parte, por ser cristão, no lugar do Aranha, teria colocado fim nessa situação, teria recebido a garota e perdoado, isso sem imprensa, sem nada. Embora, creio que ele agiu certo ao enfrentar os racistas em Porto Alegre. Contudo, penso que a exposição que essa garota teve é a pior das punições, sua fala no jogo lhe rendeu a perda do emprego, sua casa foi apedrejada... Tenho pena dela, assim como também me coloco no lugar do Aranha, pois penso que o crime de racismo sempre deva ser denunciado, pois há pessoas que só aprendem com punição legal. Todavia, acho que a garota está pagando sozinha pela ação de um grupo muito maior. Eu sinto vontade de vomitar frente a atitude de muitos negros que nos comentários nas redes sociais criticam a Patrícia por ter xingado o Aranha de macaco, mas se dirigem a ela chamando-a de: cadela, vaca, vagabunda... 

O racismo terá fim quando os poucos brancos que existem no Brasil e nós a maioria negra aprendermos a mutuamente nos respeitar como seres humanos, diferentes nas cores, mas iguais na humanidade, não digo que devemos nos amar, pois amor não se impõem, respeito sim, nem que seja a força da lei, de processo.... Amor é consequência do caminhar juntos, do conviver... Chamar um negro de macaco é classificá-lo como primitivo, não evoluído... Isso é próprio de quem se julga superior, ainda que inconsciente quem o faz manifesta pensamentos arianos, neonazistas, eugenistas... 

Se atribui a Nelson Mandela a seguinte fala:

Ninguém nasce odiando outra pessoa 
pela cor de sua pele, 
ou por sua origem, ou sua religião. 
Para odiar, as pessoas precisam aprender, 
e se elas aprendem a odiar, 
podem ser ensinadas a amar, 
pois o amor chega mais naturalmente 
ao coração humano do que o seu oposto. 
A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, 
jamais extinta.

Refletindo sobre a supracitada declaração eu penso que se os hinos do Grêmio, ou algum hino do Grêmio, ou de qualquer outro Clube, trazem expressões que hoje são consideradas racistas, e que são cantadas para atingirem a jogadores negros, as novas gerações estão sendo ensinadas a odiar, a deixar de ver e prestigiar o belo futebol executado pelo outro apenas por conta de e o outro ser negro. 

Concluindo, penso que há muito mais nessa situação do que a injúria racial cometida por Patrícia. Não a eximo de culpa, mas penso que depois de muito tempo sem nada fazer para coibir o racismo em jogos de futebol, pegaram-na como Azazel, o "Bode Emissário, ou expiatório", citado na Bíblia, em Levítico 16. Sem dúvida, essa é uma situação emblemática e que marcará a história do futebol brasileiro e traz para o centro a discussão sobre preconceito e racismo no Brasil. Creio que é chegada a hora de nós negros e brancos brasileiros abrirmos um franco diálogo sobre o racismo e suas consequências em todos os âmbitos da sociedade, principalmente na Igreja, onde sem conhecer o contexto histórico da composição, adorando ao Deus de todos os povos, incoerentemente ainda se canta: "Eis formados já os negros batalhões. Do grande usurpador! "

O racismo é um câncer a corroer o tecido social brasileiro. Ele é o hálito do diabo que espalha a dor, a exclusão, a revolta, a violência e a morte de sonhos e pessoas.  Como câncer ele alastra sua metástase por meio daqueles que negam sua existência. Como hálito do maligno ele se espalha por meio da omissão dos cristãos que apesar de admitirem sua existência se recusam a falar sobre ele dentro da Igreja. Toda vítima do racismo vai revidar de um jeito ou de outro, ela poderá revidar contra ela mesma, se auto- anulando, ou contra o seu agressor por meio da violência. Em ambas as situações haverá vidas perdidas. Racismo é uma ideologia humano diabólica que como uma bomba montada no coração da única raça humana poderá levá-la a destruição. Eu decidi falar sobre o assunto. E você? Só vai ler, curtir e quem sabe compartilhar?

Reverendo José do Carmo da Silva - mano Zé - É pastor da IMMR – Igreja Metodista em Marcos Roberto – Campo Grande – MS, graduado em Teologia e especialista em ensino de Filosofia, Sociologia e Religião. É Coordenador do MRCPR – Ministério Regional de Combate ao Preconceito racial da Igreja Metodista – 5ª Região Eclesiástica




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